quarta-feira, 18 de maio de 2016

As primeiras viagens

Eu  tinha 10 anos quando li as aventuras de Huckeleberry Finn. Peguei o livro emprestado de minha amiga Lila, o pai dela era alemão e havia lutado na guerra e gostava de contar a historia e mostrar a bala que estava atravessada na perna dele. Mantinha uma vasta biblioteca num quarto entre a sala de estar e a parte reservada para os quartos de dormir. Não abria muito aquela porta, mas quando foi pegar uma foto que ilustrava sua história eu fiquei vitrificada, estática, imóvel ao notar a quantidade de livros que ele tinha lá. Alguns empilhados e desorganizados, mas os da estante estavam todos muito alinhados.Quando o pai da Lila me contou sobre o Huck, eu não vi a hora de começar a ler.
Fazia bem rápido as tarefas de casa e da escola e corria pro quarto.
Era São Paulo. Seis filhos dentro de uma casa. Não brincávamos na rua. Não era seguro. Adorava viajar nas aventuras dos livros. Eu degustava cada palavrinha e queria estar naquele lugar descrito.
Amei.
Fui logo de volta lá devolver o livro. O pai dela me perguntou sobre algumas partes que ele não lembrava mais, eu fui refrescando sua memória. Ele ria e dizia; ”Verdade!, Já não me lembrava disso” E sorriu. Ficou sorrindo enquanto eu contava igual a uma matraca. E eu falava do amiguinho do Huck, o Tom, que era tão aventureiro quanto. Foi quando ele se levantou, foi até a estante e pegou um livro e me entregou Era o livro do Tom Sawyer. Eu vibrei quando ele disse que tinha todas as aventuras do autor e que eu poderia ficar à vontade pra le-los.
A Lila me havia dito que o pai tinha ciúmes da biblioteca dele.Não previa que seria tão mão aberta pra mim. Ela também começou a ler os livros e a gente conversava sobre os capítulos. Vários, dentre eles, O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dunas, os clássicos de nossa literatura, de José Alencar a Machado de Assis. Nunca mais parei de ler.
Um dos livros gostosos foi “Sem família” de Hector Malot, mas o que mais me identifiquei, e fatalmente incorporei na minha personalidade foi o espírito aventureiro dos dois meninos de Mark Twain.


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