Eu tinha 10 anos
quando li as aventuras de Huckeleberry Finn. Peguei o livro emprestado de minha
amiga Lila, o pai dela era alemão e havia lutado na guerra e gostava de contar a historia e mostrar a bala que estava atravessada na perna dele. Mantinha uma vasta biblioteca
num quarto entre a sala de estar e a parte reservada para os quartos de dormir.
Não abria muito aquela porta, mas quando foi pegar uma foto que ilustrava sua
história eu fiquei vitrificada, estática, imóvel ao notar a quantidade de livros que ele tinha
lá. Alguns empilhados e desorganizados, mas os da estante estavam todos muito alinhados. Quando o pai da Lila me contou sobre o Huck, eu não vi a hora de começar a ler.
Fazia bem rápido as tarefas de casa e da escola e corria pro quarto.
Era São Paulo. Seis filhos dentro de uma casa. Não brincávamos na rua. Não era seguro. Adorava viajar nas aventuras dos livros. Eu degustava cada palavrinha e queria estar naquele lugar descrito.
Era São Paulo. Seis filhos dentro de uma casa. Não brincávamos na rua. Não era seguro. Adorava viajar nas aventuras dos livros. Eu degustava cada palavrinha e queria estar naquele lugar descrito.
Amei.
Fui logo de volta lá devolver o livro. O pai dela
me perguntou sobre algumas partes que ele não lembrava mais, eu fui
refrescando sua memória. Ele ria e dizia; ”Verdade!, Já não me lembrava disso”
E sorriu. Ficou sorrindo enquanto eu contava igual a uma matraca. E eu falava
do amiguinho do Huck, o Tom, que era tão aventureiro quanto. Foi quando ele se
levantou, foi até a estante e pegou um livro e me entregou Era o livro do Tom
Sawyer. Eu vibrei quando ele disse que tinha todas as aventuras do autor e que eu poderia ficar à vontade pra le-los.
A Lila me havia dito que o pai tinha ciúmes da biblioteca
dele.Não previa que seria tão mão aberta pra mim. Ela também começou a
ler os livros e a gente conversava sobre os capítulos. Vários, dentre eles, O
Conde de Monte Cristo de Alexandre Dunas, os clássicos de nossa literatura, de José
Alencar a Machado de Assis. Nunca mais parei de ler.
Um dos livros gostosos foi “Sem família” de Hector Malot,
mas o que mais me identifiquei, e fatalmente incorporei na minha personalidade
foi o espírito aventureiro dos dois meninos de Mark Twain.
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