sábado, 7 de maio de 2016

Mãe.

Já lecionei Inglês e Educação Física para completar minha carga horária e ficar numa escola só,  pra não ter correira.
A escolinha do Bairro Bom Jesus do ensino fundamental tinha uma sala para cada série, desde o maternal, mas não tinha quadra. Eu levava as crianças para a cidade, no ônibus escolar. Ia com a primeira turma e voltava com a última, duas vezes na semana, nos outros dias lecionava Inglês.
Logo descobri a energia que tinham aquelas crianças! E como gostavam de correr!
Eu me lembro quando a diretora me ofereceu aula de artes, ao invés de Educação Física. Me imaginei; a sala toda borrada de tinta. Eu toda pintada. Acordei.
Negociei com os outros professores as aulas de Educação Fisica, Trocamos. Eles lecionariam artes.
Nunca mais fui de salto pra escola. Os alunos quase me derrubavam.
Os primeiros dias, foram um terror, não conseguia colocá-los em ordem. Aos poucos fui adotando uma postura mais rígida.
Recebi a reclamação da outra escola sobre um aluno sempre fugindo da aula. Sondei. Peguei-o bem em cima do muro. Tirei-lhe os dois chinelos. Ele era magro, bem negro, as pernas compridas, tinha 14 anos mas era bem mais alto que eu.
- Desça daí agora! Disse firme com os dois chinelos na mão. - Ele obedeceu. - Vá para a quadra e me ajude a cuidar dos outros alunos! - Ele de cabeça baixa:
 - Tá bom! Já vou, mãe, quer dizer teacher. E ergueu as mãos pra pegar os chinelos. Pôs nos pés e saiu correndo pra quadra. Nenhum aluno do Bom Jesus tinha tênis.
De vez em quando, ao invés de professora ele me chamava de mãe. E cada vez que ele falava, mais meu coração apertava. Várias vezes chorei. Ele não tinha mãe.





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